Lideranças indígenas buscam unidade de povos do estado de Minas Gerais
Um importante encontro entre as lideranças dos povos indígenas de Minas Gerais aconteceu nos dias 26 e 27 deste mês na Fazenda Ciclos, em Esmeraldas. O encontro contou com a presença de lideranças de diferentes povos do estado e marca o início da reorganização do Conselho dos Povos Indígenas de Minas Gerais (COPIMG).
Na oportunidade, foram levantadas as principais pautas que devem ser tratadas pelas lideranças que devem compor o Conselho. Os desafios, de acordo com o debate, passam pela demarcação dos territórios indígenas que só assim possibilita o avanço nas demais pautas como: moradia, educação, saúde, manutenção das tradições culturais, luta contra o avanço da mineração predatória.
De acordo com as lideranças, os povos indígenas de Minas Gerais se encontram em um momento muito delicado de falta de apoio do Estado e com estruturas de educação e saúde ameaçadas, além da morosidade no reconhecimento de áreas indígenas já retomadas no estado.
“A necessidade de nos organizarmos, unificar as ideias, de fortalecer a nossa luta, garantir acesso às políticas públicas e a proteção aos nossos territórios fez com que a gente voltasse um pouquinho no tempo, em uma época que a gente tinha uma organização dos povos indígenas de Minas Gerais. Quando a gente conseguia promover alguns debates, audiências públicas, estar nos espaços discutindo sobre a segurança alimentar, o território, política de habitação, saúde e educação. Então, a gente conseguiu avançar por algum tempo, mas depois cada liderança se dedicou para as lutas internas, deixando em aberto esse espaço de nossa organização estadual”, relembra o Cacique Pataxó da Aldeia Sede em Carmésia, Mezaque Silva.
Fundado em 1996, o COPIMG foi uma organização dos próprios indígenas que atuou com o foco na defesa dos direitos indígenas e desenvolvimento das pautas de interesse dos povos originários. Nos anos de atuação o conselho foi responsável por algumas conquistas como o diagnóstico de segurança alimentar nas aldeias; a criação dos jogos indígenas, que representam um importante evento de fortalecimento da cultura de cada povo; aumento dos recursos para merenda escolar nas escolas indígenas; o reconhecimento da categoria de professor indígena.
“O que esperamos como primeiro passo é a realização de um diagnóstico considerando a realidade das comunidades em Minas Gerais. E a partir desse diagnóstico vamos realizar ações para contemplar as demandas indicadas nesse documento”, destaca Mezaque.
A pauta da educação foi amplamente discutida e destacada como uma preocupação urgente para as lideranças atuarem enquanto COPIMG. Desafios como a estabilidade dos professores em seus cargos, a autonomia dos povos e a manutenção das suas culturas na educação indígena e a carreira profissional dos professores e professoras são questões sensíveis e prioritárias.
“A criação ou retorno desse conselho vai nos ajudar muito nessas pautas da educação. Porque a gente precisa das lideranças para tomarmos as decisões junto ao Estado. Nada melhor que essas lideranças estrarem juntas na criação das estratégias para avançar nessas pautas”, reflete a liderança do povo Kiriri de Caldas, no sul de Minas, Carliusa Ramos, que é diretora na Escola Estadual Indígena Ibiramã Kiriri.
A diretora também é representante das mulheres indígenas no encontro de lideranças e destacou a importância de as mulheres indígenas ocuparem os espaços de tomada de decisões. “Eu sou uma das representantes dentro do Coletivo de Mulheres Indígenas no estado de Minas Gerais. E andando pelas aldeias a gente vai conhecendo as demandas de cada povo. Nós mulheres precisamos estar dentro do movimento, junto com as lideranças para contribuir nos debates”, completou a diretora.
Além do pedido por garantia da participação das mulheres no espaço de deliberação do COPIMG, também foi levantado a importância de garantir a participação da juventude indígena no conselho. “Nós que estamos aqui somos a continuidade de uma luta. Tivemos a oportunidade de estarmos aqui junto aos mais velhos e ainda temos muito o que aprender com eles. É importante que em todo o espaço de discussão a gente consiga trazer os nossos mais jovens para perto, porque essa luta é contínua”, destaca Xé Pataxo, coordenador da microrregional da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (APOINME).
Após muita conversa, com o levantamento das pautas e desafios nas aldeias, e nos povos indígenas de Minas Gerais como um todo, foram apontados alguns encaminhamentos pelos participantes. Será constituída uma comissão para viabilizar a estruturação do COPIMG, formada, inicialmente, por cinco lideranças que foram selecionadas no encontro; Ocorrerá a revisão do texto do estatuto, para ver se este ainda atende as atuais necessidades do grupo; Será convocada assembleia para atualização do estatuto e eleição dos representantes, provavelmente em julho; É vontade do grupo que sejam criadas agendas junto aos candidatos ao governo de Minas Gerais para a entrega de uma carta compromisso; Além de um movimento de estreitamento de relações com os possíveis parceiros da causa indígena.
Texto e fotos: Marcio Martins
Edição: Luciano Marcos
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