Na última quarta-feira, 17 de junho, a comunidade indígena da aldeia Naô Xohã Sucupira, localizada em São Joaquim de Bicas, ocupou o hall de entrada do prédio onde fica localizado o escritório da Vale em Nova Lima, na divisa com Belo Horizonte. O principal objetivo da manifestação foi solicitar mais transparência no processo de reparação por parte da mineradora, respeitando as decisões e tratativas com a comunidade e mais agilidade no processo de realocação da comunidade, já que a área atual onde os indígenas estão conta com privações como o uso da água do rio Paraopeba e do solo, ambos prejudicados pelo desastre-crime de responsabilidade da mineradora Vale em 25 de janeiro de 2019.
“Estamos aqui reivindicando os nossos direitos, porque estamos sendo um povo esquecido. Nós estamos em uma situação em que não podemos plantar, não podemos usar a água, não podemos usar as nossas ervas medicinais. Estamos adoecendo. Não tem um dia no mês que esteja todo mundo saudável. Só vamos sair daqui quando tivermos uma conversa com a Vale”, ressalta uma das lideranças da aldeia, Dxá’cy.
A aldeia Naô Xohã Sucupira estava acompanhada de membros da ATI Insea e de sua advogada particular. A realização do manifesto aconteceu de forma pacífica, fazendo o seu awê (ritual com dança e cantos indígenas) sem obstruir a entrada dos trabalhadores e das trabalhadoras no prédio e também sem alteração no fluxo do trânsito na via pública onde o edifício se encontra.
Após um tempo de ato, representantes da mineradora Vale receberam uma comissão para uma reunião onde foram acolhidas as reivindicações. Dentre as principais pautas apresentadas para a representação da mineradora, foi ressaltada a necessidade de reaver os participantes da empresa que compõe a mesa de negociação, sob alegação de falta de ética e quebra de sigilo no processo de negociação, e a urgência em adquirir o território indicado pela comunidade para realocação da aldeia.
“Essa questão da realocação da aldeia do Cacique Sucupira tem se arrastado de uma forma, eu diria, desumana. A gente sabe que a preocupação da Vale nesse processo não é o financeiro e sim o dano à imagem. A propriedade que o Cacique Sucupira apresentou para realocação não é um valor exorbitante para os padrões da Vale. Dá a entender que a Vale quer colocar uma forma de resolver à sua maneira em lugar acolher o que a comunidade está propondo. Nós estamos falando de um projeto de vida de uma comunidade indígena. O que estamos pedindo é que a Vale tenha um outro olhar para essa comunidade para que não siga assim dessa forma tão desumana”, destaca o coordenador da ATI Insea, Leandro Lopes durante a reunião com a representação da mineradora.
A expectativa, após o diálogo no escritório da mineradora, é que as reivindicações sejam atendidas e que a mesa de negociação entre a Vale e os representantes da aldeia Naô Xohã Sucupira sejam retomadas para que a reparação possa de fato acontecer.
“Tivemos uma boa conversa, graças a Deus, e vamos voltar a ter o diálogo na mesa para negociação. Para a gente conquistar o nosso território e a nossa indenização. O território representa a espiritualidade para o meu povo Pataxó. É uma chave fundamental porque é de onde a gente tira o nosso alimento, a nossa caça, a nossa pesca, onde a gente faz o nosso ritual sagrado. O território precisa ser escolhido com o apoio do Pajé da comunidade. Já temos esse lugar, onde o Pajé sentiu a energia do território”, ressalta o Cacique Sucupira.
Atualmente, a aldeia Naô Xohã Sucupira conta com mais de 60 indígenas que aguardam pelo momento de retomada de seus modos de vida, em um local onde possam exercer os seus direitos, sua cultura e desfrutar de uma vida saudável como era antes do rompimento da barragem que atingiu o território onde estão.
Texto e foto: Marcio Martins
Edição: Leandro Lopes
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