Bacia de Vida fortalece leitura coletiva do território e impulsiona construção de novos caminhos econômicos

A entrega da Bacia de Vida da Comunidade de Córrego de Areia e Casa Nova, foi realizada durante o Encontro de Mulheres Atingidas, terceiro encontro de uma série de conversas que reúne mulheres catadoras, indígenas e atingidas em torno da troca de experiências, do fortalecimento coletivo e da construção de caminhos comuns para os territórios.
O momento marcou não apenas a apresentação de uma ferramenta de diagnóstico territorial, mas também a consolidação de um espaço de escuta, reflexão e protagonismo feminino, onde diferentes vivências e saberes se encontram para pensar alternativas de organização social, econômica e ambiental voltadas à cooperação e transição, transformando territórios construindo bem viver.

Mais do que um mapa ou um recorte geográfico, a Bacia de Vida se apresenta como um instrumento de leitura, articulação e fortalecimento dos territórios. Fundamentada nos princípios da Economia da Funcionalidade e da Cooperação (EFC), a iniciativa busca compreender como pessoas, comunidades, povos e coletivos se relacionam com os bens, serviços e dinâmicas que sustentam a vida cotidiana, promovendo uma visão integrada entre sociedade, economia e meio ambiente.

No contexto das comunidades de Córrego de Areia e Casa Nova, a Bacia de Vida se apresenta como um território de pertencimento, um espaço vivo e dinâmico onde entrelaçam relações sociais, econômicas e ecológicas indispensáveis para o desenvolvimento humano sustentável e resiliente. A proposta ultrapassa a ideia tradicional de delimitação territorial e propõe reconhecer as múltiplas interdependências que organizam a vida comunitária.

A construção desse diagnóstico territorial foi desenvolvida por meio de um processo participativo, marcado pelo protagonismo das comunidades locais. Moradores de Córrego de Areia e Casa Nova, a Associação Comunitária de Córrego de Areia, Casa Nova e Adjacências (ACCA) e a Rede de Atingidos da R3 participaram ativamente da elaboração da ferramenta, em um percurso coletivo orientado pela escuta, pela troca de experiências e pelo reconhecimento dos saberes locais.

A iniciativa contou ainda com a facilitação e guiança de instituições de pesquisa e intermediação, entre elas o INSEA, o Instituto Sustentar, o Núcleo Alternativas de Produção da UFMG e o Instituto ATEMIS, fortalecendo o diálogo entre conhecimento acadêmico e práticas territoriais.

O processo de construção da Bacia de Vida é descrito por Miryam Belo e Lívia Cristine, técnicas responsáveis pelo processo de construção da bacia,  como uma experiência “tecida a muitas mãos e corações”, expressão que traduz o caráter colaborativo da metodologia. Nesse percurso, o diagnóstico não se limita ao levantamento de informações, mas se torna um espaço de produção compartilhada de sentidos e de elaboração de soluções adaptadas à realidade local.

O mapa resultante dessa construção coletiva revela muito mais do que localização e infraestrutura. Nele estão representados os atores sociais das comunidades e suas relações com o entorno, incluindo instituições, gestão pública, serviços disponíveis e estruturas de apoio existentes no território. O diagnóstico também identifica a produção comunitária e seus fluxos de consumo, produção e comercialização, evidenciando as conexões econômicas que sustentam a vida local.

Outro aspecto central da Bacia de Vida é a identificação daquilo que mobiliza e une o território, os vínculos, práticas e iniciativas que fortalecem a convivência e a organização comunitária. Ao tornar visíveis essas relações, o instrumento amplia a capacidade de reflexão sobre os potenciais e desafios presentes no cotidiano das comunidades.

A proposta está diretamente ligada à construção de um futuro comum. Entre seus próximos passos está a reflexão sobre os elementos que animam a organização social, a produção e a vida no território, contribuindo para a formação de um Ecossistema de Cooperação e Transição voltado a novos modelos econômicos.

Nesse horizonte, a Bacia de Vida dialoga com as transformações contemporâneas do trabalho e com novas formas de compreender o conceito de valor, reconhecendo que as dinâmicas econômicas atuais exigem respostas capazes de integrar dimensões sociais, ambientais e societárias.

A noção de Ecossistema Cooperativo Territorializado emerge, assim, como uma alternativa de organização econômica baseada na cooperação e na funcionalidade. Trata-se de uma abordagem que busca otimizar o uso de bens e serviços, reduzir desperdícios e gerar bem-estar duradouro, substituindo lógicas fragmentadas por formas mais integradas e solidárias de produção e consumo.

Mais do que um diagnóstico, a Bacia de Vida se consolida como um processo permanente de aprendizagem e gestão territorial. Ao revelar conexões, fortalecer entendimentos e estimular a construção conjunta de projetos e metodologias de gestão ligadas ao cotidiano das comunidades, a iniciativa reafirma o território como espaço de vida, pertencimento e transformação.

Nesse movimento, a cooperação deixa de ser apenas um princípio e se torna prática concreta para reativar vínculos, fortalecer a autonomia coletiva e ampliar a alegria de viver nos territórios.

Rolar para cima