Visibilidade Trans é Resistência, Trabalho e Esperança
O dia 29 de janeiro marca, desde 2004, o Dia Nacional da Visibilidade Trans, uma data que reafirma a luta por direitos, respeito e inclusão de pessoas travestis e transexuais na sociedade brasileira.
Mais do que existir, pessoas trans querem viver com dignidade, acesso ao trabalho, à educação, à saúde e ao reconhecimento de suas potencialidades, talentos e saberes. A visibilidade é, antes de tudo, o direito de ser quem se é, sem medo.
A visibilidade trans precisa ser traduzida em:
- Políticas públicas que garantam acesso ao emprego, à educação e à saúde;
- Proteção contra a violência e medidas eficazes de enfrentamento da transfobia;
- Reconhecimento institucional e legal de identidades de gênero;
- Programas de inclusão social que valorizem talentos, saberes e potencialidades.
Visibilidade é política pública, é cuidado, é justiça social
Falar em visibilidade trans é falar em políticas públicas, em proteção social, em acesso a direitos e em respeito à diversidade. É reconhecer que cada pessoa trans tem história, sonhos, capacidades e direito ao futuro.
Neste 29 de janeiro, reafirmamos que visibilidade não é apenas ser visto, mas ser respeitado, protegido e valorizado.
É sobre garantir vida, trabalho, afeto e esperança.
Porque nenhuma existência deve ser interrompida pelo preconceito.
Porque viver com dignidade é um direito de todas, todos e todes.
Trabalho
Segundo um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), as desigualdades no mercado de trabalho formal são profundas: apenas uma pequena parcela da população trans consegue vínculos formais de emprego no país, um indicador que expressa exclusão econômica crônica e limita a autonomia financeira de milhares de pessoas trans.
Além disso, a presença de pessoas trans no mercado formal é estatisticamente insignificante — cerca de 0,38% das vagas analisadas, apesar de elas existir em número muito maior na população geral.
Esse cenário de exclusão no trabalho está diretamente relacionado com outras formas de desigualdade social: a falta de acesso ao emprego formal está conectada a menores oportunidades de educação, menor renda e maior dependência de formas de sobrevivência precárias, fazendo com que a população trans muitas vezes enfrente uma vida marcada pela vulnerabilidade. A ausência de dados sistemáticos e oficiais sobre escolaridade e renda ainda dificulta respostas públicas mais eficazes
Violência
Na última segunda-feira (26/01/2026), a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) divulgou novos dados sobre a violência contra a população trans. Pelo 18º ano consecutivo, o Brasil segue liderando o ranking mundial de assassinatos de pessoas trans. Com mais de 120 assassinatos registrados em anos recentes — principalmente de travestis e mulheres trans jovens, negras e em situação de vulnerabilidade social.
Essa realidade é resultado de uma violência estrutural, marcada por desigualdades sociais, racismo, transfobia institucional e exclusão histórica. Muitas pessoas trans são empurradas para a informalidade, para a precarização e para situações de vulnerabilidade extrema.
Esses números não são apenas estatísticas: representam vidas interrompidas e comunidades que enfrentam formas múltiplas de violência física, simbólica e institucional todos os dias. A expectativa de vida entre pessoas trans no Brasil é drasticamente inferior à média nacional — estimada em cerca de 35 anos, frente aos quase 75 anos da população em geral — um indicador extremo de exclusão e risco.
Em outubro de 2025, Cristina, mobilizadora social do INSEA, foi violentamente atacada pelo ex-companheiro, evidenciando como a violência de gênero também atravessa a vida de mulheres trans e travestis que atuam na defesa de direitos.
O vídeo abaixo é um de seus últimos relatos público, um testemunho potente que permanece como memória, denúncia e convite à reflexão coletiva.
Nesse contexto, o Projeto Construindo Ecossistemas Solidários, desenvolvido pelo INSEA, surge como uma estratégia concreta de enfrentamento das vulnerabilidades sociais, econômicas e ambientais que atravessam a vida de populações historicamente marginalizadas, entre elas pessoas LGBTQIAPN+ em situação ou trajetória de rua.
Diante da exclusão social e das violências que atingem a população LGBTQIAPN+, o Projeto Construindo Ecossistemas Solidários desenvolveu, ao longo do último ano, ações articulando acolhimento, formação e inclusão produtiva como caminhos para a dignidade.
As ações envolveram oficinas e processos formativos para geração de trabalho e renda, vivências coletivas de escuta e cuidado e atividades de arte, cultura e comunicação, que funcionaram como ferramentas de expressão, fortalecimento de vínculos e afirmação de identidades. A comunicação também se destacou com a produção da websérie “Me Chama!”, que dá visibilidade a saberes, habilidades e histórias de resistência de pessoas LGBTQIAPN+, a partir da pergunta “O que falta para eu ser chamada?”.
Somaram-se ainda ações de mobilização e articulação em rede, ampliando a organização coletiva e o enfrentamento ao preconceito e às violências.
As experiências do último ano reforçam que visibilidade só se concretiza quando se transforma em acesso a direitos, trabalho e vida digna

