Mulheres catadoras e a transformação dos territórios: encontro debate trabalho, autonomia e protagonismo feminino
Realizado nesta sexta-feira (13), o encontro “Mulheres Catadoras – Da Reciclagem à Regeneração: Mulheres que Transformam Territórios” reuniu catadoras, indígenas e atingidas por barragens, além de organizações parceiras e representantes de iniciativas ligadas à reciclagem e à economia solidária para refletir sobre o papel estratégico das mulheres na transformação social, econômica e ambiental dos territórios.
O encontro aconteceu no Centro Mineiro de Referência em Resíduos – CMRR e integrou as ações promovidas pelo Ciclos Ecossistema de Cooperação e Transição, iniciativa voltada à construção de redes de cooperação e transição para modelos econômicos mais sustentáveis e territorializados.
Mais do que um espaço de troca de experiências, a atividade foi estruturada como um momento de análise coletiva sobre as condições de trabalho, as dinâmicas organizativas e os desafios enfrentados pelas mulheres que atuam na base da cadeia da reciclagem.
Mulheres no centro da economia na cadeia da reciclagem
No Brasil, a reciclagem urbana está profundamente ligada ao trabalho realizado por catadoras e catadores de materiais recicláveis. São esses trabalhadores que garantem a recuperação de grande parte dos resíduos que retornam ao ciclo produtivo, contribuindo diretamente para a redução de impactos ambientais e para a economia de recursos naturais.
Dentro desse cenário, as mulheres ocupam um papel central. Além de participarem das atividades operacionais como coleta, triagem e organização dos materiais, muitas também desempenham funções de articulação comunitária, gestão das cooperativas e mobilização social.
Entretanto, a presença majoritária das mulheres no trabalho cotidiano da reciclagem nem sempre se traduz em presença equivalente nos espaços de tomada de decisão. Foi a partir dessa constatação que o encontro buscou provocar reflexões sobre a necessidade de ampliar o protagonismo feminino na definição dos rumos das organizações, das políticas públicas e das estratégias de desenvolvimento territorial.
Escuta das vivências e desafios das catadoras
Durante o encontro, as participantes compartilharam experiências relacionadas às condições de trabalho, à geração de renda, às relações dentro das cooperativas e aos desafios enfrentados no cotidiano da atividade.
Entre os temas que emergiram nas discussões estiveram a valorização econômica do trabalho das catadoras, o reconhecimento social da atividade, as condições estruturais de trabalho e as múltiplas jornadas enfrentadas por muitas mulheres que conciliam o trabalho produtivo com responsabilidades domésticas e familiares.
A escuta dessas experiências permitiu identificar elementos comuns entre as mulheres de diferentes territórios e, ao mesmo tempo, reconhecer as estratégias de organização e resistência que vêm sendo construídas pelas próprias mulheres ao longo do tempo.
Da reciclagem à regeneração dos territórios
A proposta do encontro parte de uma perspectiva ampliada sobre o papel da reciclagem nos territórios. Para além da gestão de resíduos, o debate aponta para a possibilidade de construir processos de regeneração social, econômica e ambiental a partir da organização coletiva e do fortalecimento das redes sociais, novos serviços e inovação social.
Nesse contexto, as mulheres aparecem como agentes fundamentais na articulação dessas transformações. Ao organizar coletivos, associações e cooperativas, mobilizar comunidades e participar da gestão dos empreendimentos solidários, elas contribuem diretamente para a construção de modelos econômicos mais inclusivos e sustentáveis.
A ideia de “regeneração” discutida no encontro está relacionada justamente à capacidade de reconfigurar relações econômicas e sociais nos territórios, valorizando o trabalho coletivo, a autonomia das organizações e a gestão comunitária dos recursos.
Um ciclo de diálogos entre diferentes realidades femininas
O encontro com as catadoras marcou o início de um ciclo de diálogos que pretende aprofundar a reflexão sobre diferentes realidades vividas por mulheres em contextos territoriais diversos.
Nos próximos encontros, o debate será ampliado para outras experiências. Um deles será dedicado às mulheres indígenas e outro às mulheres atingidas por conflitos socioambientais, ampliando a compreensão sobre como diferentes grupos constroem estratégias de resistência, organização e transformação de seus territórios.
A expectativa é que, a partir dessas trocas, seja possível fortalecer processos de articulação e desenvolver propostas de projetos e iniciativas capazes de gerar impactos concretos nos territórios.
Protagonismo feminino como caminho para transformação
Ao final do encontro, ficou evidente que reconhecer o papel das mulheres na base das cadeias produtivas e nos processos comunitários é também reconhecer sua capacidade de liderança e tomada de decisão.
Se as mulheres já são maioria em diversas frentes de trabalho nos territórios, incluindo a reciclagem, ampliar sua presença nos espaços de decisão aparece como um passo fundamental para fortalecer as organizações, qualificar as políticas públicas e construir caminhos mais justos para o desenvolvimento local.
Mais do que um encontro pontual, a iniciativa aponta para a construção de um processo contínuo de escuta, articulação e fortalecimento do protagonismo feminino nas transformações sociais que emergem a partir dos territórios.
