Festa, trabalho e memória: INSEA celebra os 4 anos da retomada da Aldeia Arapowã Kakyá e entrega etnomapa ao povo Xucuru Kariri
Evento reuniu lideranças, parceiros e pessoas atingidas da Bacia do Paraopeba em Brumadinho (MG) para celebrar a resistência e fortalecer a luta pela regularização territorial.
No último domingo (22), a Aldeia Arapowã Kakyá, localizada em Brumadinho (MG), celebrou os 4 anos da Retomada do Povo Xucuru Kariri — um marco de resistência, espiritualidade e afirmação do direito ao território. O INSEA esteve presente como parceiro e, durante o encontro, realizou a entrega do etnomapa do território à comunidade.
O etnomapeamento do território foi conduzido pela Analista Ambiental do INSEA, Dayane Lopes, em parceria com a Coordenação Regional Fundação Nacional dos Povos Indígenas (CRMG/ES-FUNAI). O documento foi produzido para subsidiar as discussões sobre a regularização fundiária do território Xukuru Kariri da Aldeia Arapowã Kakyá e será utilizado pela comunidade no planejamento e gestão do seu território. O etnomapeamento representa um instrumento estratégico na definição e defesa dos territórios dos povos indígenas e comunidades tradicionais.
Um dia de cultura, espiritualidade e memória
As comemorações reuniram rituais e cantos tradicionais, jogos e expressões culturais do povo Xucuru Kariri. A data marca os quatro anos da “retomada” do povo Xukuru Kariri em Brumadinho.
Como afirmou o Cacique Arapowãnã: “Há quatro anos, nosso povo reafirmou sua história, sua ancestralidade e seu direito sagrado ao território. Quatro anos de coragem, resistência e esperança plantadas na terra que nos sustenta e nos dá identidade. É tempo de celebrar a vida, honrar os encantados, fortalecer a memória dos que vieram antes e renovar nosso compromisso com as futuras gerações”.
Ao longo de sua caminhada o povo Xukuru Kariri encontrou na espiritualidade, nos parentes e nos apoiadores da causa indígena a força necessária para sua missão de proteger a terra e os filhos da terra, em um território profundamente dominado pela mineração
Como destacado por Luciano Marcos, Diretor Presidente do INSEA, em sua fala na abertura do evento:
“Um dia de festa, um dia de celebração da resistência dos povos indígenas, da luta dos povos indígenas. E quando falamos dessa luta aqui, temos que falar também da luta lá de cima (força dos encantados), que também está atuando aqui. Então, quando o Carlinhos (Cacique Arapowãnã) fala que foi a espiritualidade que os guiou para o lugar em que a terra mãe é destruída, é a espiritualidade dizendo para cada um de nós a nossa tarefa e a nossa missão de proteger a terra e os filhos da terra.
E quando falamos que estamos celebrando a resistência, temos que trazer aqui presente os mais de 100 povos desse estado de Minas Gerais que desapareceram para sempre. Mas desapareceram da história “oficial”, porque eles estão presentes aqui na resistência, na luta, na força de todos nós. Isso aqui (local da retomada Xukuru Kariri) é território que a mineração dominou. Então, quando ocupamos um território que a mineração dominou, estamos também dizendo não a esse modelo predatório, um não a essa exploração, um não a essa destruição.”
Luciano destacou também em sua fala a necessidade de fazermos sempre dessa vitalidade inspirada pelos povos indígenas a grande força de transformação para construirmos uma outra história, construirmos um outro país, um outro mundo possível para todos nós.
Atingidos da Bacia do Paraopeba reforçam laços com a aldeia
O encontro também contou com a participação das pessoas da Rede de Atingidos da Região 3 da bacia do Paraopeba. A presença desse grupo reforça o diálogo entre comunidades atingidas pela mineração e povos originários, contribuindo para a construção do Ecossistema de Cooperação e Transição — uma iniciativa que tem ganhado força ao longo da bacia.
As comemorações dos 4 anos da retomada Xukuru Kariri não se limitaram ao registro de uma data. Entendida como “celebração simbólica de um objeto em um tempo consagrado a uma multiplicidade de atividades coletivas de função expressiva”[1], a festividade reuniu ritual, canto, jogo e partilha — linguagens que, juntas, afirmam a identidade do povo Xucuru Kariri e atualizam sua memória coletiva. É nesse entrelaçamento entre o simbólico e o cotidiano que a festa ganha sua dimensão política: mais do que celebrar, ela articula e resiste frente à expropriação do bem comum, reafirmando que retomar o território é também retomar o direito de existir e de fazer cultura sobre a própria terra.
Para o INSEA, estar presente nessa celebração é um ato de solidariedade e parceria concreta. A entrega do etnomapa materializa o compromisso do instituto com a defesa dos direitos territoriais dos povos indígenas e com processos participativos que colocam as comunidades como protagonistas da gestão e proteção de seus territórios.
[1] Isambert, François-André. Le sens du sacré – fête et religión populaire. Paris: Les Éditions de Minuit, 1982, p.315.
Por: Leandro Lopes – Antropólogo, membro do INSEA e coordenador da ATI Indígena Pataxó e Pataxó HãHãHãe


